sábado, 10 de julho de 2010

Os seis poemas que seguem são parte integrante de minha participação no V Desafio de Escritores promovido pela Literatura de Câmara de Brasília. O desafio consiste em responder, semanalmente, a um tema proposto. Vem ai o VI Desafio, alguém se habilita?
Maiores informações no site abaixo:
http://desafiosdosescritores.sites.uol.com.br/

A morte da vida após a morte


Poema vencedor do V Desafio de Escritores da Literatura de Câmara de Brasília.
Norma Santi

Há dias que serpenteia à minha volta
Posso prevê-la no olhar desviado de meus filhos
Na dor das telas de Frida 
Na canção desesperada de Neruda

É rasteira
Subterrânea
Uma chaga
Uma ferida

Enrosca-se
Lambe cada parte do meu corpo
Num transe 
Uma febre convulsiva

Debatemo-nos
Estremeço em seus olhos de Medusa
E pereço em seu riso de Monalisa

Contorcida, chego ao antes do início
Ao nada
Aos mandamentos
Que Ela sussurrou em meu ouvido

De hoje e para todo sempre
Não brincarás no paraíso
Não arderás no fogo do inferno
Não aguardarás no limbo
Não purificarás no purgatório
Não te justificarás em juízo 
Não reencarnarás em outro corpo 
Não dançarás na Roda da Samsara
Não terás qualquer essência
Não terás que pagar carmas
Da vida não levarás amarras
–––––––––––––––––––––––

Um trem para o infinito

Norma Santi

Hesito
Um último passo
Uma música conhecida
Em palavras de desculpas

Impulso
De correr em desabalo
No sentido contrário

Não é um voo
Ou naufrágio do navio

Costuro incertezas
Trançado-as
Fio a fio

Um homem elegante
Do século passado
Me saúda com seu chapéu

Fixa seu olhar em mim
Me convida para partir

Uma locomotiva
Pra sempre parada
Um tango argentino
Uma pintura desfocada

Plantações de trigo em grão
Passageiros de classe única
Pairam dançando valsas
De antigas melodias

Um trem que vai
Com os olhos em quem fica
Um trem bala
Uma Maria fumaça
Bradando a hora da partida

Subo no trem de todos os tormentos
Um TGV em anunciado suicídio
Trafego sobre a velocidade de meu tempo
E a vagarosidade do dias idos.

Tonta
Às horas rotas
Preparo-me para o último mergulho
Desperto
Traiçoeiramente salva
Pela urgência alarmada do apito.

Minha Casa

Norma Santi 

Moro num pedaço de chão
Que me acolhe
Me envolve
Me aguarda 
Desgoverno-me 
O solo acompanha meus pés
Ando de ré
Na casa que sempre foi a minha

A gênese 
O útero
Os fluídos
O gosto e o desgosto 

A impulsão
A corda que me afasta e me puxa
Às novas e velhas moradas 

O ar que me enche
Que me comprime 

O sol se esgueirando na esquina
Dicotomia
Claro escuro
A flor na janela 

Cotidianamente
Até que se esvaneça
A luz mórbida do inverno

Removidamente
Até que se complete
O ciclo da terra 

Da minha cama
Pressinto que
O berimbau batuca
Pedradas
Capoeiras
Nas matas atravessadas 

Desambiguo
O destino
Dançando na guita da vida 

É terreno
Fixo no concreto
Refúgio seguro

Minha casa tem um cobertor
De imagens abstratas
Que me espreita
Nas frestas das telhas 
Um debochado corsário
Que naufraga meus navios
Quando se afunda
E se lambuza
Nos meus travesseiros

Minha casa tem uma ameixeira
Que me presenteia de frutas
No mês do meu aniversário 

Minha casa tem a música
Composta no silêncio
Rompida
Pelo eco da intermitente
Algazarra das crianças 
E no porão
Envelhece
Na necessária escuridão
O vinho
Que acompanha o pão
Minha casa é feita de
Paredes de madeira
E de fome saciada

A minha casa sempre inicia
Na primavera de outubro
E termina
Nas curvas da interrogação.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Transmutação


Puxo um fio
Uma tirolesa para o passado
Avisto-me já de longe
Sentada no pátio de minha casa

Sinto que se aproxima um ar morno
Fico feliz
O frio rigoroso se afasta
Um suspiro profundo e retorno ao trabalho
É preciso terminar as cercas
Os animais há algum tempo aguardam
Pacientes
Amontoados ao meu lado

Crio cercados
Rampas
Estradas enfileiradas.
Deposito primeiro o boi
A ovelha
A cabra
A vaca
Ao lado do bezerro malhado

Fecho e abro a porteira
Comando a liberdade
E o cativeiro

Mas logo me canso
O vento faz arte nas minhas páginas
E para a minha mão recolho o gado

Jogo as cinco Marias
Por sobre a mão
Que se abre em arco
Para que caminhem
Uma após uma
Até que todas passem para o outro lado

Mas uma página virada
Pelas travessuras do vento
Pego uma das cinco Marias
Traço riscos
Chego ao céu depois do décimo quadrado

Aproxima-se a noite
Minha mãe assobia cantigas na janela
Nova mudança de ares
O entardecer cria sombras
Que provocam um arrepio gelado

Recolho meu tesouro
Num canto secreto
No fundo do quintal

Balanço-me agora por sobre a corda do tempo
Ariadne me devolve o fio
Enquanto sopra um vento de alquimia
Uma resposta de ouro metal.

Como então não sabiam
Aqueles errantes moços
Que ao toque de uma criança
Toda pedra é filosofal?

Transitório

Norma Santi

Provisório,
Colapso,
Desordem,
O olho semiaberto
A diária luta da luz contra a retina.
Arrasto o humor pela casa.
Minha imaginação mergulhada em delírios
Mete-se enlouquecida a revirar gavetas:
Uma menina de urso na mão
Perambula pela casa.
Penso que me observa.
A água no corpo me salva,
Esfria a tensão.
Começo a sentir o pulso.
O mundo se movimenta.
A cafeína me desperta.
Saio da casa.
A louca senta comigo enquanto espio janelas.
Aproveita cada deslize de minha atenção.
Zombateira, logo se mete em encrencas.
Sabe que nem mesmo a loucura me é permitida.
Vaga entre dois mundos,
Ambos provisórios
Caminho provisório.
Nada é nosso.
Tudo é emprestado
Ao provisório tempo de estar aqui.
Corpo provisório
Numa alma eterna.
É por isso que cabem nela todos os mundos,
Todas as arbitrariedades,
Tudo que é por pouco e pra sempre.
Provisória é a vida!
Provisória a saciedade.
Provisória a tempestade.
Provisório o sol,
Mesmo diante de sua majestade.
Sacudo-me,
Volto ao ponto do outro lado.
Sigo na direção inversa.
Provisório é o clic da luz apagando a escuridão.
Provisória é a luz banhada da escuridão.
Constante apenas o déjà vu.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A felicidade

Norma Santi

A felicidade, quando da boa,
Enche o corpo de pequenos gritos.
Expulsa sangrias, gangrenas, maus humores.

A felicidade, quando da boa,
É praga,
É toda espevitada, exclusivista.
Apaga da memória as outras felicidades
E traiçoeiramente trancafia os dias de tristeza.

Enche-se de zes,
Protege-se nos ecos,
Apodera-se de cada micro espaço organismo.

A felicidade quando impera
Deleita-se no poder de rainha
Absoluta, ditatorial, implacável.

Mas a felicidade é efêmera, vã.
Volúvel,
Logo se cansa e procura novos ares.

A felicidade, quando da boa,
vai embora.
Deixa o ambiente desolado
E atira no leito sua vítima.

Mas não tem jeito.
Quando se conhece a felicidade,
Dedicamos o tempo a reencontrá-la.
Como amantes perdidos no tempo
Em busca de um vago e solene momento.


Amálgama

Norma Santi  Colocada por Deus em linha elíptica Pra viver de dias cândidos Deitar-me à rede de noites plácidas Enluarada de ...