sexta-feira, 6 de maio de 2011

apaticarestia

Apaticarestia

Norma Santi

À míngua
A língua procura
A dobra
Que enrola teu corpo

Às tontas
A louca devassa
O meio
Que torneia teus dedos

Às pressas
A presa escapa
E dobra
O entorno do meio

E a fome volta
Cachorro e seu dono
À míngua
Às tontas
Às pressas

Às escuras submeto-me à fome
A fome de ter fome
De ter fome
De ter fome

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Aloha

Saindo daqui, tô no sal!
Sal brow?
Eu é que não vou me lascar
Saindo da barriga da mãe
Sal, só se for do mar!

Digam pra mamãe que já fui
Que nem precisa se preocupar
E que meu único problema
É se o pico da onda crowdiar

Que as cuecas pelo chão
Todo mês mando pr’ela lavar
E já que não tenho grana
Com cabelo não vou gastar

Vou deixar tudo ficar rasta
Vezinquando parafinar
Vou trabalhar de sol a sol
E em Floripa vou morar

Nem com o rango precisa
Mamãezinha ficar cabreira
Qualquer larica da hora
No luau, foguinho é lareira

Duas ilhotas no horizonte
Tanta mulher de shape perfeito

E com Marijuana na cabeça

 Não seriam um par de peitos?

Me distraio, fico aflito
Tomo uma vaca, mó caldão
Só ouço a galera dizendo:
Sai daí seu haole vacilão.

De repente meu mar fica flat
Minha onda pequena marola
Dou adeus ao vento terral
E por hoje melhor ir embora

Paguei de pangas do pântano
E agora o que posso fazer?
Melhor desfazer rapidinho
Este kaô de WCT

Chegando em casa mamãezinha
Me diz que sou sonhador
Me manda logo tomar prumo
Que ainda me quer ver doutor

Vou guardar meu tocossauro
E bora estudar pro Enem
Vou fazer vestibular pra Oceano
E aí não me segura ninguém

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Como morre um grande amor

Norma Santi
Poema selecionado como Principal Destaque do Banco de Talentos Fenaban 2009

Um grande amor não morre. Suspende-se.
Toma uma rua paralela.
Sorrateiro que é, ignora o não e se junta ao plano das horas.

Um grande amor não morre.
Apressa-se antes em crescer.
Unem-se a ele cada palavra não dita, cada gargalhada repentina e incontida.

Um grande amor não morre.
Senta-se na poltrona mais confortável, assiste um cobertor e puxa a lista dos filmes prometidos.
Um grande amor não morre.
Recusa-se a fechar a janela exuberante da paisagem que continua ali, exibindo-se.

Um grande amor não morre.
Expande-se e agiganta-se porque deixamos que brotasse em nós.
Cresce alheio à interrupção a qual o submetemos.

Um grande amor não morre.
Rende-se ao tempo.
Guarda dentro de si todas as canções,
Todos os olhares que por ora estão detidos.

Um grande amor não morre.
Pacientemente aguarda.
Demora-se a compreender os porquês.

Fica perplexo ao ver seus sonhos um a um pendurados na linha paralela.
Linha onde ficam todos os amores subitamente interrompidos.
Todos os amores andarilhos, abandonados, órfãos.

Um grande amor não morre.
Subalimenta-se.
Insiste faminto a revirar restos que o mantenham vivo.

Presente.
Caminha de dia e a noite recolhe-se num canto qualquer em que lhe deem abrigo.
Sente o frio do esquecimento.

Um dia parte. Mas, partir para um grande amor não é morrer.
É transmutar-se.
É mansamente adormecer sob a doce sombra do alvorecer.

sábado, 10 de julho de 2010

Os seis poemas que seguem são parte integrante de minha participação no V Desafio de Escritores promovido pela Literatura de Câmara de Brasília. O desafio consiste em responder, semanalmente, a um tema proposto. Vem ai o VI Desafio, alguém se habilita?
Maiores informações no site abaixo:
http://desafiosdosescritores.sites.uol.com.br/

A morte da vida após a morte


Poema vencedor do V Desafio de Escritores da Literatura de Câmara de Brasília.
Norma Santi

Há dias que serpenteia à minha volta
Posso prevê-la no olhar desviado de meus filhos
Na dor das telas de Frida 
Na canção desesperada de Neruda

É rasteira
Subterrânea
Uma chaga
Uma ferida

Enrosca-se
Lambe cada parte do meu corpo
Num transe 
Uma febre convulsiva

Debatemo-nos
Estremeço em seus olhos de Medusa
E pereço em seu riso de Monalisa

Contorcida, chego ao antes do início
Ao nada
Aos mandamentos
Que Ela sussurrou em meu ouvido

De hoje e para todo sempre
Não brincarás no paraíso
Não arderás no fogo do inferno
Não aguardarás no limbo
Não purificarás no purgatório
Não te justificarás em juízo 
Não reencarnarás em outro corpo 
Não dançarás na Roda da Samsara
Não terás qualquer essência
Não terás que pagar carmas
Da vida não levarás amarras
–––––––––––––––––––––––

Um trem para o infinito

Norma Santi

Hesito
Um último passo
Uma música conhecida
Em palavras de desculpas

Impulso
De correr em desabalo
No sentido contrário

Não é um voo
Ou naufrágio do navio

Costuro incertezas
Trançado-as
Fio a fio

Um homem elegante
Do século passado
Me saúda com seu chapéu

Fixa seu olhar em mim
Me convida para partir

Uma locomotiva
Pra sempre parada
Um tango argentino
Uma pintura desfocada

Plantações de trigo em grão
Passageiros de classe única
Pairam dançando valsas
De antigas melodias

Um trem que vai
Com os olhos em quem fica
Um trem bala
Uma Maria fumaça
Bradando a hora da partida

Subo no trem de todos os tormentos
Um TGV em anunciado suicídio
Trafego sobre a velocidade de meu tempo
E a vagarosidade do dias idos.

Tonta
Às horas rotas
Preparo-me para o último mergulho
Desperto
Traiçoeiramente salva
Pela urgência alarmada do apito.

Minha Casa

Norma Santi 

Moro num pedaço de chão
Que me acolhe
Me envolve
Me aguarda 
Desgoverno-me 
O solo acompanha meus pés
Ando de ré
Na casa que sempre foi a minha

A gênese 
O útero
Os fluídos
O gosto e o desgosto 

A impulsão
A corda que me afasta e me puxa
Às novas e velhas moradas 

O ar que me enche
Que me comprime 

O sol se esgueirando na esquina
Dicotomia
Claro escuro
A flor na janela 

Cotidianamente
Até que se esvaneça
A luz mórbida do inverno

Removidamente
Até que se complete
O ciclo da terra 

Da minha cama
Pressinto que
O berimbau batuca
Pedradas
Capoeiras
Nas matas atravessadas 

Desambiguo
O destino
Dançando na guita da vida 

É terreno
Fixo no concreto
Refúgio seguro

Minha casa tem um cobertor
De imagens abstratas
Que me espreita
Nas frestas das telhas 
Um debochado corsário
Que naufraga meus navios
Quando se afunda
E se lambuza
Nos meus travesseiros

Minha casa tem uma ameixeira
Que me presenteia de frutas
No mês do meu aniversário 

Minha casa tem a música
Composta no silêncio
Rompida
Pelo eco da intermitente
Algazarra das crianças 
E no porão
Envelhece
Na necessária escuridão
O vinho
Que acompanha o pão
Minha casa é feita de
Paredes de madeira
E de fome saciada

A minha casa sempre inicia
Na primavera de outubro
E termina
Nas curvas da interrogação.

Amálgama

Norma Santi  Colocada por Deus em linha elíptica Pra viver de dias cândidos Deitar-me à rede de noites plácidas Enluarada de ...