sexta-feira, 7 de maio de 2010

A felicidade

Norma Santi

A felicidade, quando da boa,
Enche o corpo de pequenos gritos.
Expulsa sangrias, gangrenas, maus humores.

A felicidade, quando da boa,
É praga,
É toda espevitada, exclusivista.
Apaga da memória as outras felicidades
E traiçoeiramente trancafia os dias de tristeza.

Enche-se de zes,
Protege-se nos ecos,
Apodera-se de cada micro espaço organismo.

A felicidade quando impera
Deleita-se no poder de rainha
Absoluta, ditatorial, implacável.

Mas a felicidade é efêmera, vã.
Volúvel,
Logo se cansa e procura novos ares.

A felicidade, quando da boa,
vai embora.
Deixa o ambiente desolado
E atira no leito sua vítima.

Mas não tem jeito.
Quando se conhece a felicidade,
Dedicamos o tempo a reencontrá-la.
Como amantes perdidos no tempo
Em busca de um vago e solene momento.


sábado, 17 de abril de 2010

Embriaguez

Norma Santi


Vinho par
Cerveja grupo
Cachaça solidão

Vinho conversa
Cerveja grito
Cachaça sem som

Vinho envolvimento
Cerveja extra-diversão
Cachaça reclusão.

Vinho antes               
            Cerveja antes durante e depois                     
                        Cachaça só, devastação

Vinho verdade                      
            Cerveja ilusão
                        Cachaça intimidação

Vinho cabeça
            Cerveja fígado
                        Cachaça coração.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Vazios

Norma Santi

Quando há presença de você
Há um vazio dos outros
Mundo girando lento, desfocado.

Quando há ausência de você
Há um mundo de possibilidades
Há um vazio da presença de você.

Quando me junto a mim
Há um vazio do mundo,
Um vazio de você,
E sou eu com meus vazios.

Sou eu com minhas vozes,
Sou eu com meus silêncios,
Me construo,
Me desconstruo.

Me encho de significados
E murcho num suspiro.

Quando há presença de mim
Não cabe você
Não cabe o mundo.

Mínguo de novo
E há você
E há o mundo.

Lua cheia crescente
Nova minguante
Eu, você e nossa presença no mundo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Onde estou?

Norma Santi


Onde estou?
Vagando,
Procurando novos sentidos,
Criando novos espaços em mim.
Deixando que o tempo,
Este taciturno ancião,
Se encarregue de me manter viva.

Lutando contra as vilanias
E os fantasmas que insistem em rondar.
Tranco-os em baús para que durmam
E aguardo pacientemente que me deixem dormir também.

Espiando o mundo
Que me repara indiferente.
Um corpo a mais se movendo
Junto a muitos outros passos,
Outros olhares perdidos e sonambulentos.

Criando um traço tênue
Que me separa e que me une
Individual, coletivo, individual
Dentro e fora,
Trancado e aberto.

Junto as mãos,
Trinco os dedos,
Respiro fundo,
E me preparo para mais um mergulho.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Estar com você

André e Norma

Estar com você é não ter idade.
É deixar os problemas sentados do lado de fora, aguardando emburrados.
Estar com você significa parar o tempo, enclausurando-o numa cápsula que se abre na hora do adeus.
Estar com você é esquecer o ponto, esquecer a vírgula e viver tudo num fôlego só.
Estar com você é ver o mundo de cima, espiando por entre frestas, sentados sobre a lua, enquanto o sol banha a terra.
Estar com você é soltar o corpo e saber que não haverá a queda...

Estar com você é escrever no silêncio das emoções um livro sem palavras.
É desafiar o tempo, transformando um instante em horas e horas num instante.
Estar com você é desafiar a velocidade frenética da vida e dar-lhe compasso.
É tornar factível o aroma da música, o som da paisagem e o sabor das cores do vento
Estar com você é encher de emoção a vida e de leveza o caminhar.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Dor

André e Norma

Dor de saudade
Dor de querer
Dor sem idade
Dor de sofrer
Flor sem cor
Perfume sem odor
A luz se apaga,
mas não a dor.....

Dor da vontade,
Sublimada em cor
Cor sem piedade,
Transformada em ardor.
Como se fosse uma tela aberta
Aguardando o talhe
De um abraço de amor.

domingo, 22 de novembro de 2009

Recusa

Norma Santi

Perdoa-me se não pude me despedir de ti na janela.
Não queria que visses minha lágrima no olho,
Nem meu nó na garganta.
Não sei a mágica de fazer o tempo correr.
Tão pouco fazê-lo parar.
Não sei estalar os dedos
Para arrumar a mala.
Não sei conter o coração dentro do peito.

Mas sei fazer a poesia que me aproxima de ti.
Executar a música que reflete minha alma.
Sei respeitar a farda
Que me faz sentir o fardo da dor.
Tenho sabido colocar cada coisa a seu tempo.
Esperado cada amanhecer,
Pois sei que é nele que posso te encontrar.

Mas não sei conter a minha alma que agora escorre para fora.
Nem mesmo a canção me acalma.
Minha voz segue rasgada.
Um blues.
Uma guitarra que reclama
Sua presença.

Abraço meu corpo
Do jeito como tu o farias.
Suspendo a dor, lembrando do teu riso.
E voo contigo.
Traio o tempo e espaço.
E construo a ponte
Que mantém unidas as nossas mãos.

Amálgama

Norma Santi  Colocada por Deus em linha elíptica Pra viver de dias cândidos Deitar-me à rede de noites plácidas Enluarada de ...